CID-10, CID-11 e o que muda para quem trabalha com dados do SUS
A estrutura da V2008 em números, o que as tabelas de transição da OMS são — e o que elas não são
conjuntos oficiais que acompanham o servidor — a CID-10 V2008 publicada pelo DataSUS e as tabelas de transição da OMS, release 2025-01 — e podem ser reproduzidas por qualquer pessoa a partir das fontes citadas.*
Quem trabalha com dado de saúde no Brasil convive com duas classificações ao mesmo tempo, e elas não são versões uma da outra no sentido em que se costuma pensar. Este texto é sobre o que separa as duas, o que existe de oficial para ligá-las, e onde estão os erros mais comuns de quem faz essa ponte na mão.
O que é a CID-10 que o SUS usa
O SUS opera sobre a CID-10, versão V2008, traduzida para o português pelo Centro Brasileiro de Classificação de Doenças (CBCD, da Faculdade de Saúde Pública da USP) e publicada eletronicamente pelo DataSUS. É o que preenche o campo de diagnóstico da AIH, do SIA, da declaração de óbito, do SINAN. Não é uma tradução informal: é o padrão operacional.
A estrutura tem quatro níveis, e as contagens exatas do arquivo V2008 são estas:
| Nível | Quantidade | Exemplo |
|---|---|---|
| Capítulos | 22 |
Capítulo I — Algumas doenças infecciosas e parasitárias (A00–B99) |
| Grupos | 275 | A00–A09 — Doenças infecciosas intestinais |
| Categorias (3 caracteres) | 2.045 | A00 — Cólera |
| Subcategorias (4 caracteres) | 12.451 | A00.0 — Cólera devida a Vibrio cholerae 01, biótipo cholerae |
Fonte: DataSUS / CBCD, CID-10 V2008, http://www2.datasus.gov.br/cid10/V2008/ — contagens extraídas do conjunto embutido em medical-terminologies-mcp.
Três detalhes desse arquivo derrubam quem cruza bases:
1. O código tem duas grafias. A subcategoria aparece como A000 na chave e como A00.0 na exibição. Bases diferentes escolhem grafias diferentes, e um JOIN ingênuo entre elas casa zero linhas sem reclamar. Normalize antes.
2. Nem todo código é usável em qualquer contexto. O arquivo traz marcadores de restrição por sexo e de causa de óbito. Um código restrito a um sexo que aparece com o outro é erro de digitação na origem, não achado epidemiológico — mas só aparece se alguém for olhar o marcador.
3. Categoria não é subcategoria. I21 (infarto agudo do miocárdio) e I21.0 não são o mesmo grão. Contar as duas na mesma tabela dupla-conta. É o erro mais comum em contagem de morbidade a partir de dado bruto.
O que é a CID-11, e por que ela ainda não substituiu nada aqui
A CID-11 é a revisão vigente da OMS. Ela não é uma CID-10 renumerada: mudou o número de capítulos, criou capítulos novos (medicina tradicional, saúde sexual), introduziu pós-coordenação — a possibilidade de compor um código principal com eixos adicionais (gravidade, lateralidade, agente etiológico) —, e sua identidade canônica não é o código alfanumérico, e sim uma URI.
Enquanto isso, os sistemas de informação do SUS seguem em CID-10 V2008. Na prática, quem trabalha com dado brasileiro precisa dos dois: a CID-10 para operar, a CID-11 para comparar internacionalmente e para acompanhar a literatura recente.
As tabelas de transição: o que elas são, e o que não são
A OMS publica, dentro de cada release da CID-11, tabelas de correspondência entre as duas revisões. Na release 2025-01 (publicada em 24/01/2025), o conteúdo é este:
- 11.243 entradas de CID-10 mapeadas;
- 1.461 delas trazem alternativas documentadas pela própria OMS, além do código principal;
- nenhuma entrada fica sem código principal.
Um exemplo, o diabetes tipo 2:
CID-10 E11 Type 2 diabetes mellitus (capítulo IV)
CID-11 5A11 Type 2 diabetes mellitus (capítulo 05)
URI: http://id.who.int/icd/entity/119724091
Fonte: OMS, tabelas de transição da release 2025-01, https://icdcdn.who.int/static/releasefiles/2025-01/mapping.zip
E aqui vem a parte que costuma ser ignorada. A orientação da própria OMS sobre essas tabelas é explícita: elas mostram a correspondência entre as revisões e “não se destinam a converter dados diretamente de uma revisão para a outra”.
Isso não é formalidade jurídica. As 1.461 entradas com alternativas são exatamente os casos em que a correspondência não é de um para um: uma categoria da CID-10 que se desdobrou, ou que foi absorvida por um agrupamento diferente. Rodar a tabela como se fosse um dicionário de tradução, sobre uma base de milhões de registros, produz uma série histórica que parece contínua e não é. O uso legítimo é outro: consultar caso a caso, com a alternativa à vista, para decidir com critério clínico ou epidemiológico.
Uma nota sobre tradução
Nenhum dos textos acima é traduzido por máquina, e isso é uma escolha deliberada de quem serve terminologia.
- A CID-10 em português é a tradução oficial do CBCD. Não há por que traduzir o que já foi traduzido por quem tem autoridade para isso.
- A CID-11 tem linearização oficial em português da OMS — pede-se com o parâmetro de idioma, e vem o rótulo oficial.
- O MeSH tem traduções da própria NLM, onde elas existem.
Quando a fonte não tem tradução oficial para uma entrada, a resposta honesta é devolver o idioma de origem. Um rótulo clínico traduzido por máquina parece serviço e é passivo: uma diferença sutil de termo muda o que o código significa, e quem lê não tem como saber que aquele texto não é oficial.
Licenças, porque elas diferem entre as fontes
Um detalhe que atrapalha mais projetos do que deveria: as classificações não compartilham licença, e o software que as serve não estende a sua própria.
- CID-10 V2008 (DataSUS/CBCD): © OMS; tradução © CBCD/FSP-USP; arquivos eletrônicos publicados pelo DataSUS. A permissão é de uso pelos desenvolvedores com o devido crédito e sem custo.
- CID-11 (OMS): Creative Commons Atribuição-SemDerivações 3.0 IGO (CC BY-ND 3.0 IGO), com citação exigida e a ressalva de que a OMS pode encerrar a licença mediante aviso.
- Tabelas de transição: © OMS, sob os Termos de Uso da CID-11.
- LOINC: © Regenstrief Institute, gratuito sob a licença própria.
- RxNorm e MeSH: obras do governo dos EUA, servidas pela NLM.
- SNOMED CT: exige licença da SNOMED International. O Brasil não é país membro — o caminho aqui é a licença de Afiliado.
A regra que evita problema: a licença do código do software não vale para o conteúdo que ele serve. Cada resposta deve carregar a licença da fonte daquele número.
E onde entra um assistente de IA
Perguntar a um modelo “qual o código CID-10 do infarto agudo do miocárdio?” devolve um código plausível. Costuma acertar nos casos famosos, e erra silenciosamente na cauda — que é justamente onde a consulta importa, porque nos casos famosos ninguém precisa perguntar.
O ganho de ligar o assistente às fontes oficiais é o mesmo de sempre: procedência. O código vem com a fonte, a versão da terminologia, a URL canônica e a licença; o rótulo em português vem do CBCD ou da OMS, não de uma tradução inventada na hora; e o mapeamento entre revisões vem da tabela da OMS, com as alternativas à vista, em vez de uma escolha implícita.
É o que o medical-terminologies-mcp faz: 31 ferramentas sobre ICD-11, LOINC, RxNorm, MeSH, ATC e CID-10, para clientes que falam MCP. A CID-10 vai embutida — consulta sem chamada de rede e sem limite de taxa —, e há validação em lote de até 100 códigos de uma vez, entre seis terminologias, para quem precisa auditar uma base inteira antes de analisá-la.
Uma última recomendação, independente de ferramenta: antes de comparar duas séries de morbidade, verifique se as duas estão na mesma revisão e no mesmo grão. Boa parte das quebras inexplicáveis em série histórica de saúde é uma dessas duas coisas.
Servidor: medical-terminologies-mcp · endpoint hospedado em https://medical.sidneybissoli.com/mcp · pacote npm medical-terminologies-mcp · código sob licença MIT. As terminologias servidas têm licenças próprias — veja NOTICE.md.